Melhor crítica de uma banda que eu já li

Retirado do G1:

Álbum de estréia do Nove Mil Anjos é desastroso

Eles passaram 40 dias no deserto – na verdade, esse tempo foi gasto em “Los Angeles, Califórnia, Hollywood”, como contaram no constrangedor vídeo viral que lançou a banda em setembro deste ano, no Youtube – e, ao invés de voltarem com alguma revelação, apareceram simplesmente com um disco ruim. Esse poderia ser um resumo básico da estréia da banda Nove Mil Anjos.

A formação da banda é semi-estelar. Tirando o vocalista Perí, que foi achado por meio de testes, o Nove Mil anjos é formado por Peu, ex-Pitty na guitarra, o ex-Charlie Brown Jr. Champignon no baixo e Júnior Lima, ex-Sandy, na bateria. Esse elenco conseguiu atrair a atenção da mídia e mesmo dos fãs das bandas com os quais seus membros ficaram famosos.

Até aí, só uma jogada clássica do showbiz: desde o power-trio iglês Cream, nos anos 60, que a mitologia da “superbanda”, formada por membros ilustres de outros projetos, é aproveitada de todas as maneiras pelas gravadoras. O problema é quando o resultado é desastroso.

Produzido por Sebastian Krys, que já trabalhou com Sandy & Junior e faturou 11 Grammys (7 deles Grammys Latinos), o álbum de estréia da banda, “9MA”, já está disponível na íntegra no perfil da banda no site MySpace, e deve chegar em formato CD às lojas ainda nesta semana.

Sem nenhum momento digno de nota, a referência sonora básica do disco é o rock alternativo norte-americano dos anos 90. Que o diga o primeiro single da banda, “Chuva agora”: baixo com “groove”, guitarras distorcidas, refrão alto. Nada ali soa espontâneo, parece mais uma construção baseada em fórmulas, e qualquer ouvido mais atento percebe rapidamente que a emulação de referências (Red Hot Chilli Peppers, Rage Against The Machine, Nirvana, new metal) soa mais como tentativa deliberada de cópia que simples inspiração.

Produto

O Nove Mil Anjos não consegue escapar da sua própria essência: não é uma banda, e sim um produto, ou seja, não está voltado para a música, mas sim para uma fatia de mercado. Mesmo que esse tipo de pensamento possa eventualmente dar bons frutos, na maioria das vezes só consegue criar música que não consegue existir fora das cada vez mais obsoletas engrenagens da indústria musical – que usa suas estretégias de divulgação (e muito dinheiro) para empurrar, via rádio, televisão e agora internet, artistas que se destinam a determinados públicos.

No caso do Nove Mil Anjos, o público-alvo deve ser o adolescente recém chegado ao mundo da música e que procura algum tipo de som pesado para descarregar suas frustrações e angústias amplificadas pela torrente de hormônios típicos da idade. A banda tem todos os clichês necessários para ocupar essa confusão típica dos adolescentes: letras “existenciais” (“Não apresse o rio/ Ele corre sozinho”, diz o refrão de “O rio”), músicos “competentes”, guitarras sujas, “atitude”.

Em teoria, parece melhor que a dieta de “axé-pagode-sertanejo” (ou qualquer outro ritmo que possa ser percebido como fenômeno criado pelas gravadoras) das rádios, mas no fundo, o Nove Mil Anjos não é uma alternativa, e sim mais uma tentativa de atingir todos os públicos consumidores de música possíveis.

Pouco importa se o Nova Mil Anjos tem data de validade e provavelmente não existirá daqui cinco ou dez anos. A única coisa a que esse disco se presta é para dar uma boa oportunidade de se pensar o que as pessoas esperam da música para suas vidas – e se elas realmente querem escolher aquilo que ouvirão.

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